sábado, fevereiro 15, 2003



A guerra dos livros contra o mundo efêmero

Em entrevista exclusiva, Nicholas A. Basbanes diz que o livro é a maior invenção humana, repositório da cultura e do espírito de mortos sábios, ou nem tanto


Luís Antõnio Giron


Existe vida após a morte, jura o jornalista americano Nicholas A. Basbanes. E não há mistério algum nisso, pelo menos fora do âmbito das questões de fé ou de ciência, pois a capacidade de conservar vivo um espírito prescinde de metafísica ou mesmo de criogenagem. Basta um livro. Eis porque a cultura ainda tem peso numa civilização cada vez mais tecnológica e despida de valores humanísticos, para não dizer humanos.
Basbanes acaba de lançar, nos Estados Unidos, o livro “Patience & Fortitude” (HarperCollins, 636 págs., disponível na Livraria Cultura de São Paulo, www.livrariacultura.com.br). O subtítulo da obra antecipa o seu conteúdo: “Uma Crônica Errante de Pessoas, Lugares e Cultura do Livro” (A Roving Chronicle of Book Peple, Book Places, and Book Culture). Desvenda o mundo à parte de produtores do chamado “pão do espirito”.
“Para mim, um livro continua a ser, nas palavras da ‘Areopagitica’, de John Milton, o ‘precioso sangue da vida de um espírito sábio, embalsamado e conservado como jóia com o objetivo de uma vida depois da vida”, diz Basbanes, de Nova York, em entrevista exclusiva ao Valor Econômico.
Basbanes, nascido em Lowell, Massachussetts, em 1943, não é religioso nem um desses hierofantes da auto-ajuda neurolingüística que tanto vendem livros hoje. Muito menos atua como colecionador compulsivo. Ele trocou a reportagem investigativa que praticou nos anos 70 pela paixão pela cultura do livro. Serviu na marinha americana durante a Guerra do Vietnâ e foi editor do suplemento literário do “The Sunday Telegraph” de 1978 e 1991. Há 25 anos, Basbanes estuda seus cultores, lugares e métodos de conservação e divulgação. Entrevistou, ao longo desse quarto de século, biblômanos, bibliófilos, bibliotecômanos e até bibliófagos, colecionadores, conservadores e caçadores de papiros egípcios e incunábulos medievais em geral. Fez questão de visitar pessoalmente algumas das principais bibliotecas e livrarias do mundo e, com o material recolhido de suas impressões e conversas, produziu o ensaio “Gentle Madness” (1995), premiado livro cujo título se baseou no exemplo do colecionador Isaiah Thomas (1749-1831), descrito por seu neto como um sujeito “tocado desde cedo pela mais pacífica das enfermidades, a bibliomania”.
“Gentle Madness” foi considerado o “livro do ano” pelo jornal “The New York Times”. Isso porque Basbanes exibiu tanto alta erudição como um estilo saboroso, capaz de conduzir descontraidamente o leitor a um universo tido como árido. Ele traçou perfis de loucos por livros através de 25 séculos de história da cultura ocidental. “Entrevistei muitos intelectuais proeminentes, inclusive latino-americnos, como Carlos Fuentes, Jorge Amado e Vargas Llosa. Assim, tenho uma bem fundamentada paixão pelo assunto”, diz o pesquisador.
“Patience & Fortitude”, explica, é a conseqüência natural do desenvolivmento desse trabalho apaixonado. “O primeiro livro abordava as razões da tendência humana de colecionar e preservar. O segundo emerge de uma situçaõ smeelhante, só que buscando ampliar o conceito de cultura do livro.” Em “Gentle Madness”, Basbanes retratou colecionadores fanáticos. Já em “Patience & Fortitude”, a investigação abarca todo tipo de “gente livresca”, de escritores a vendedores de livros, passando por amantes do gênero.
O título do novo volume homenageia uma das bibliotecas que Basbanes mais freqüenta: a Biblioteca Pública de Nova York, cidade em que reside. “Paciência” (Patience) e “Ânimo” (Fortitude) são os nomes dos dois leões de mármore cor-de-rosa do Tennessee que guardam a escadaria da Biblioteca de Nova York desde que ela foi instalada no atual prédio da Quinta Avenida, em 1911. “Gostei da idéia dos leões ocmo uma metáfora do livro, expressando a imaberm dos guardiães dos portões do conhecimernto em um tempo em que saber e cultura estão sob ataque das mais variadas formas”, diz Basbanes. Ele conta que as duas palavras foram usadas pelo prefeito de Nova York, Fiorello LaGuardia, durante a Grande Depressão. “O prefeito sempre terminava seu programa de rádio aos domingos, estimulando os americanos com as duas palavras. Elas acabaram sendo identificadas com os leões. Acho-as significativas e se aplicam ao tempo atual.”
Com paciência e ânimo, Basbanes percorreu, nos últimos cinco anos, os labirintos de estantes dos lugares mais variados, a conversar com tipos excêntricos e sonhadores, de Otto Bettmann, que reuniu o maior arquivo fotográfico do mundo (comprado pela Microsoft) e lhe deu a idéia da pesquisa, a escritores picados pelo mosquito do colecionismo, como o italiano Umberto Eco e a inglesa Penelope Fitzgerald. Fotografou pórticos desses templos do saber, como o da biblioteca da abadia de Saint-Gallen, encimada pelos dizeres em grego: “Casa da Cura da Alma “ (Psyché Iatreion) O resultado do volumoso tomo causa fascínio, quando não estupor. O autor refaz o mapa da cultura do mundo ocidental a partir da guerra eterna pela conservação do patrimônio esprititual do homem que está nos livros. No conflito que varre milênios, os livros saem sempre perdendo. As “casas da cura das almas” são alvos constantes de saques, bombardeios e incêndios. É o caso do acervo do mosteiro de Monte Cassino, na Itália, com milhares de códices e pergaminhos antigos e medievais intactos até a Segunda Guerra Mundial, bombardeado e assaltado pelas tropas aliadas, já que o local estava sob domínio de um batalhão nazista. Embora não sejam citados por Basbanes, os pracinas brasileiros tomaram parte do cerco a Monte Cassino. E o Exército Brasileiro entrou para a história como destruidor da herança da cultura humana. O autor justifica: “Acho terrível o episódio, mas, como disse o general Dwight Eisenhouver, o comandante supremo das Forças Aliadas, ‘se eu tiver que escolher entre destgruir um edifício famoso ou sacrificar nossos homens, então nas vidas de nossos homens contam infinitamente mais e o edifícios devem ir.’ Ele teve de tomar uma decisão difícil, mas, acho, como alguém que serviu no Vietnã, que, às vezes, decisões difícieis devem ser tomadas para assegurar as tropas. Vidas humanas são mais importantes que a segurança de livros.”
A conversa de Basbanes se dá também com figuras históricas também, já que elas estão vivas nos livros. Entre eles, Alexandre, o Grande, alundo de Aristóteles, que carregava o rolo com a “Ilíada”, de Homero, em sua expedição para conquistar o mundo. O livro provinha da biblioteca do rei persa Dario III e inspirou o guerreiro macedônio em táticas de avanço e em construir uma cidade no Egito que levasse seu nome, Alexandria. Esta foi construída somente 50 anos depois da morte de Alexandre, aos 24 anos, em 331 a.C. O cadáver de Alexandre foi embalsamado por especialists egípcios e caldeus em Mênfis, envolvido em folhas de ouro e mergulhado em mel e levado à nova cidade quando de sua fundação. Permaneceu num mausoléu chamado Brucheum, aberto a visitação pública durante 700 anos. Logo depois da chegada do corpo, fundou-se a Bibliotcheca Alexandrina, a mais importante instituição do gênero a Antigüidade, com 700 mil rolos de papiro. O autor apresenta diversas versões para a destruição da biblioteca. “Ninguém, sabe ao certo como se deu a aniquilação total do maior acervo da Antigüidade”, diz. “O mais provável é que cada uma das versões contenham um pouco da verdade total. Suspeito de que a história envolvendo o califa Omar, que teria mandado queimar os papiros em 640 d.C. por não conterem ensinamentos corânicos, foi registrada por um historiador árabe. E, certamente, a fogueira dos papirus no século VII marcou o fim da biblioteca. Mas há notícias de bandos de cristãos que devastaram a coleção 250 anos antes porque ela continha obras pagãs.
O mapa de Basbanes compreende locais não tão celebrados pelas modas culturais. Conta a formação da Biblioteca de Pergamo (cujas ruínas estão na Turquia), lugar favorito de Plínio, o Velho, e tantos outros sábios romanos, desmontada por Marco Antônio como presente a Cleópatra. Traça a linhagem do monge irlandês Saint Columba (521-597), que peregrinou aos Alpes e fundou o mosteriro de Bobbio, no norte da Itália. Seu discípulo, o monge Gallus, fundou o mosteiro de Saint-Gallen, na Suíça, em 747, até hoje dono do acervo mais importante de iluminuras e incunábulos medievais. Revela como se deu o enriquecimento da coleção da biblioteca de Abadia de Durham, no norte da Inglaterra, que sedia hoje a mais impressionante coleção de manuscritos medievais da Grã-Bretanha. O autor não se esquece de passear pelas fantásticas bibliotecas italianas, como a de Monte Cassino, as bibliotecas Malatestiana, em Cesena, a Medicea Laurenziana de Florença (que sobreviveu à fogueira de Savonraloa em 1498), a Vaticana, a Deutsche Bücherei de Leipzig, A British Library de Londres. São instituições responsáveis pela manutenção da tradição e pela conservação de textos antigos e medievais até a atualidade
“Gosto de sentir os lugares, sua atmosfera, seu cheiro”, diz Basbanes. “Mas, naturalmetne, ainda não percorri todas as bibliotecas importantes do mundo.”
A possibilidade de esgotar o assunto o atrai, mas sabe ser impraticável, Mesmo assim, continua a mapear e identificar lugares em que a alma de autores é preservada. “Acredito na continuidade da cultura humana através dos livros, mas não acho que o e-book, por exemplo, funcionou. Nunca consegui ler um e-book inteiro. É um fracasso, um flop, como dizem os americanos. Ainda não fizeram nada melhor que um livro, criado no século XVI por Gutenberg e outros impressores”.
O próximo trabalho de Basbanes será lançado em 2003 e já tem título: “Vida Além da Vida – A Permanência dos Livros num mundo Impermanente” (Life Beyond Life – The Permanece of Books in na Impermanent World). “Livro é uma coisa maravilhosa porque guarda o registro de nossa existência”, diz o autor, entusiasmado. “Ele também faz o registro de nossa loucura, de aspectos ruins e bons. O livro é o meio pelo qual nos comunicamos com todos os que vieram antes de nós, e pelo qual adquirimos o quinhão de imortalidade em relação a aqueles que ainda virão.”
Ler “Patience & Fortitude” é como viver 2.500 anos em 600 páginas. E ter a certeza de que a corrente de leitores irá se prolongar por outros milênios.