sábado, agosto 30, 2003

MPB ainda não chegou ao século XXI


Músicos contemporâneos sofrem da angústia da influência da geração que surgiu quatro décadas atrás


Luís Antônio Giron


Ela não é mais aquela. Antes orgulho da nação, a música brasileira tem curtido dias de baixa popularidade e fraca invenção. Nos últimos três anos, ela tem deixado de ser a referência fundamental que foi no passado.
Não há gênero que escape à depressão que contamina os sons do país: samba, sertanejo, rap, hip-hop, eletrônico, axé, pop, brega, rock e até a venerável MPB estão em baixa. Dá-se uma crise generalizada de conteúdo, interpretação, forma e mercado. Onde estão os painéis da realidade, do agora, que tanto frutificaram na música nacional? Cadê a renovação que a gente não ouve? E os intérpretes com shows memoráveis? Resposta: ainda não apareceram, pois o século XXI está para chegar na música. E, pelo jeito, vai demorar um pouco...
A ressaca começa por duas razões de mercado. As vendagens de CDs despencam por causa da pirataria que abocanha mais da metade do mercado, depreciando o produto. Em segundo lugar, o formato mp3 ajudou a libertar a música dos suportes tradicionais, pela Internet ou pelos CDs caseiros. A situação está tão feis que os profissionais da área andam dizendo que o jabá vai acabar por falta de recursos.Talvez a agonia do jabá se transforme de problema a solução e as emissoras de rádio e TV finalmente dêem espaço à arte de qualidade.
O fato é que a música popular não merece mais o título de manifestação artística mais poderosa do Brasil. Perde a força e cede lugar a manifestações culturais que se mostram mais dinâmicas e eficazes em captar o que rola pelas ruas. Basta citar a literatura e o cinema: a nova narrativa da violência urbana e os filmes em torno da marginalidade.
A música precedeu e inspirou ambos em flagrar a periferia, via Mano Brown, Racionais MC’s , Pavilhão 9 e outros nomes do rap paulistano do fim do século XX. Na época, eles eletrificaram os sociólogos e outros acadêmicos, que identificaram no rap uma revolução social e cultural. O entusiasmo durou pouco. Até os “manos” se estetizaram e se retiraram voluntariamente de cena. Os acadêmicos ficaram sós com sua semiótica da canção urbana... do passado.
A música pop deve autuar o momento em flagrante. Deve ser um boletim de ocorrência, um xingamento da hora, espírito do tempo, algo bem diferente de artes lentas como a literatura e o cinema. Foram necessários dez anos para André du Rap contar seu choque como vítima e testmunha do massacre do Carandiru, em São Paulo, em 1992. O resultado foi o livro “Sobrevivente”, lançado há um mês, uma mistura de memória, ficção, ritmo e poesia. Quarenta anos se passaram entre a fundação da Cidade de Deus no Rio e o longa-metragem de Fernando Meirelles. O filme “Cidade de Deus” baseou-se, por seu turno, no livro homônimo de Paulo Lins, lançado em1998 e que só agora chega aos primeiros lugares em vendagem. Para os músicos, basta um achado para convertê-lo em som. Só que os insights sonoros rareiam cada vez mais.
A música parece viver do saudosismo, talvez por ter cometido excessos de presente no passado recente. Para citar um exemplo pop, os Paralamas regressam relembrando a longa carreira, sem mostrar, infelizmente, o vigor de anos pregressos. É uma alegria voltar a ouvir Herbert Vianna e constatar que ele está superando a tragédia. Isso, porém, não quer dizer que ele tenha conseguido recuperar a genialidade no novo CD-show – se é que ele a teve algum dia. Os Titãs e o Skank, bandas veteranas, exploram as glórias passadas e mordem a própria cauda, num círculo pouco virtuoso de repetições incessantes. Um brainstorm qualquer no escritório do empresário André Poladian foi capaz de exumar a banda RPM, em revival zumbi patético. Músicos famosos viciaram-se na saudade e na autoparódia..
Isso não significa que não existam exceções e não surjam formas inauditas. Mas as chamadas “novas gerações” têm fracassado em tentar ultrapassar seus ídolos do passado. Talvez sabe aí resida o xis do problema: os músicos jovens esperaram muito tempo para se afirmar e já é tarde demais. A paciência oculta a covardia. A juventude se esvai antes dos ideais. Resta ao músico jovem a chamada “angústia da influência”. Este termo foi criado pelo crítico americano Harold Bloom para explicar como os poetas se lêem no correr da história pode ser aplicado à linha evolutiva musical. Os jovens criadores são assombrados pela geração que criou a sigla MPB, a Tropicália e o Clube de Esquina no final dos anos 60 e início dos 70. Uma geração que atinge os 60 anos de idade e que precisa obrigatoriamente se aposentar, pois seu ciclo produtivo se esgotou, como muitos deles reconhecem.
Jorge Ben Jor continua a fazer CDs e comerciais de telefone celular, mas não tem nem pode ter o gás de antanho. Gilberto Gil, Tom Zé e Caetano Veloso insistem em pular no palco, mas dá para exigir deles mais do que deles se espera? Apesar da resistência do material, nâo se sabe até quando Lô Borges, Beto Guedes, Milton Nascimento e Fernando Brant vão resistir à oxidação. Paulinho da Viola, Ivan Lins e Toquinho seguem na batalha. Rita Lee, Guilherme Arantes e outros roqueiros da antiga teimam em manter a pose. Chico Buarque meio que desistiu, percebendo que samba é “música de jovem”. Para ele, chegou a hora de se devotar à literatura. Provavelmente, nenhuma novidade vai surgir dessa turma além de alimentar a ansiedade das gerações ulteriores que manifestam impotência diante da produção monumental dos emepebistas históricas. Estes chegaram ao mercado antes de a mídia ter sido supercontrolada, com “a ditadura dentro da ditadura” de 1968. Tomaram de assalto a televisão e o rádio e fizeram a fama em frente às câmeras franqueadas na época dos festivais. Com o tempo, só fizeram consolidar a reputação e, de certo modo, impediram a chegada dos mais novos ao disco e aos shows. Com a recessão e o jabaculê, nem os medalhões conseguiram mais tocar em rádio e TV.
Daí se complicar a geopolítica da turma contemporânea. Há os herdeiros da vanguarda paulistana dos anos 70, migrantes que contagiaram a Paulicéia nos 90 com elementos autóctones, como o paraibano Chico César, o pernambucano Lenine e o maranhense Zeca Baleiro. Os três cultivam o amor à terra natal, embora à distância. Usam modismos da música pop para mesclá-los aos ritmos étnicos de seus respectivos estados. Lenine reza pela cartilha tropicalista temperada pelas lições de Alceu Valença. Chico César deve muito à voz de Caetano Veloso, ao reggae e ao forró. Zeca Baleiro não nega o influxo irrestível de Zé Ramalho em sua inspiração. O trio, na casa dos 30 e 40 anos, estreou demasiadamente tarde, e amadureceu antes de atingir a massa. Encontrou a solução de propor um pacto com a moçada, mas não a conquistou. Tem no carioca Paulinho Moska um bom e dedicado seguidor. No fundo, não introduzem novidades na série musical brasileira. Chico César, Lenine e Zeca promovem uma releitura do tropicalismo à luz das tendências do pop contemporãneo. Tudo à sombra do já feito.
O mesmo pode ser dito da banda Pato Fu, talentosa reformadora da neotropicália sob inspiração roqueira. Seu mais recente CD, ao vivo, gravado no museu de arte da Pampulha, é mais uma rememoração de carreira do que um catálogo de novidades. Nos anos 90, Patu Fu desabrochou como a última flor do rock brasileiro.
Nem mesmo o festejado “som da Trama” é capaz de provocar frissons. A gravadora - sediada em São Paulo e dirigida pelos filhos de Elis Regina, Wilson Simonal e Jair Rodriges – ensaia soprar um vento de renovação no cenário de pasmaceira, mas pela via do passado. O músico Max de Castro, em seu segundo CD, “Orchestra Klaxon”, lançado pela gravadora, tenta conciliar tecno e o samba-rock. Wilson Simoninha vai pelo mesmo trilho no seu segundo trabalho, “SambalandClub”. Não é ocioso lembrar que Max e Simoninha são filhos do falecido Wilson Simonal. Eles se ocupam em salvar a memória do pai, amaldiçoado pela intelligentsia por um suposto envolvimento com a tortura. Pedro Camargo Mariano, cantor, e João Marcello Bôscoli, produtor, baterista e compositor, não conseguem se livrar do vulto dos pais, a cantora Elis Regina e o maestro César Camargo Mariano. Produzem um som de alto extrato, ainda que marcado pelo influxo do antes. Jairzinho não foge à regra e, de certo modo, busca as pegadas do pai Jair Rodrigues, de Simonal e Elis.
Quer angústia da influência pior que a da cantora Maria Rita, filha de Elis e César Mariano? Ela estreou em São Paulo 2001 e, desde então, tem sido perseguida pelos fãs da finada cantora gaúcha, considerada por muitos como a maior que este país já ouviu. Maria Rita, com sua voz poderosa e estilo vazado no fulcro da MPB (Elis, dizem, inventou o termo), serve como exemplo de influência que até agora não a libertou dos vínculos com o passado que ela não conheceu. Maria Rita é uma cantora involuntariamente nostálgica. Não abraçou o tecno e evitou a tomar parte do cast da gravadora do meio-irmão. Os saudosistas anseiam por ouvir nela a volta de Elis. E a imprensa “hypa”...
No terreno da eletrônica ortodoxa, os Djs Marky, Dolores, Camilo Rocha e tantos outros vazam nos clubes e raves a música que toca em outros cantos do mundo. Fazem um serviço tecno de entrega de informação eficiente. O trabalho deles é criativo, só que latu sensu. Isso se a gente aceitar que samplear é inventar.
A eletrônica tem igualmente fascinado os antigos praticante do mangue-beat pernambucanos, como Otto, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A. e Stella Campos. Otto quase se converteu em DJ, com seus sambas moderninhos ao compasso de transístores. Mesmo um grupo distante da tendência, como o caatingueiro quinteto Cordel do Fogo Encantado, surgido em Arcoverde, sertão de Pernambuco, está flertando com os sons sintetizados em seu segundo CD. O Cordel trocou os sertões pela Paulicéia e quer mostrar que evoluiu. No entanto, é preciso lembrar que, no quesito eletro-acústica, Gil e Tom Zé já faziam isso nos discos lançados no fim dos anos 60. E eles se baseavam no pop internacional. Não existe novidade na eletrônica, moda que apareceu nos anos 50 na Europa. Desde a aparição de Chico Science, em 1991, Pernambuco se tornou o celeiro de renovação da música pop nativa, até porque soube juntar com talento o folclore com os sons tecnológicos.
O folclore sempre constituiu a base da música popular brasileira. Nesse sentido, é essencial citar o cantor e compositor pernambucano Siba, rabequista da banda Mestre Ambrósio. Ele lançou, neste ano, um CD que marca a época, intitulado “Fuloresta do Samba” (Independente, com patrocínio do governo de Pernambuco). É uma espécie de “Buena Vista Social Club” do agreste. No disco,l Siba tenta reviver o maracatu de baque solto, reunindo as velhas gerações do gênero. É o trabalho mais renovador da MPB deste ano, por justamente casar o arcaísmo e a invenção imprevisível. Porém, a aparição do novo em Siba, como no Cordel do Fogo Encantado, surge do substrato arcaico da cultura rural.
Por tudo isso, falta uma reflexão sobre a música popular brasileira, assim como sobram produtos dignos de ser pensados. Não há necessidade de a música assumir sempre a missão de ponta-de-lança de uma cultura. Às vezes, ela pode e deve recuar, atuar a contrapelo em busca das origens, assim como a crítica que a apoiou por tantos anos e que se encontra agora intimidada, retirada de campo. Certamente virá o dia de a música brasileira voltará a ser o que era. Então ela afinará o diapasão de acordo com o tempo-espaço. Por enquanto, ela não ultrapassou os desafios que lhe foram colocados no início dos anos 1990. Ela canta para antes de ontem.



Luís Antônio Giron é jornalista, musicólogo e crítico. É autor do romance “Ensaio de Ponto” (Editora 34, 1998), da biografia “Mario Reis: o fino do samba” (Editora 34, 2001) e do ensaio “Minoridade Crítica – a ópera e o teatro nos folhetins da corte (1826-1861)”, a sair pela Edusp. Atualmente, pesquisa a trajetória crítica do escritor maranhense Gonçalves Dias.