Não é bom bater à porta da casa de Tomie Ohtake com perguntas habituais que se fazem a um entrevistado quando o repórter liga o piloto automático, do tipo como foi sua infância, o casamento, preferências políticas e as viagens pelo mundo. A artista plástica de 93 anos não gosta desse tipo de abordagem. Não que a simpática senhora vá reclamar. Seu modos são delicados, cheios de nuances, humor e ironia. Ela provavelmente vai pedir para mudar de assunto ou simplesmente encerrar a entrevista oferecendo uma xícara de chá ou um suco de laranja. “Já está bom, né?”, vai dizer com um sorriso. Bom é chegar à casa de Tomie, com os olhos bem abertos para tudo o que experimentará. E encher, sim, Tomie de perguntas sobre seus assuntos favoritos: pintar, criar, esculpir, projetar. A idéia da visita é mergulhar nesses assuntos para, de alguma forma, esquecer da existência de outros seres que não sejam esses feitos de formas, transparências, densidades, pigmentos e sinteses. Será possível tal modalidade de viagem?
Nada indica que sim. Por maior que seja o esforço, o mundo e a realidade acabam se impondo à imaginação. Mas vamos tentar, partindo daquilo que existe para as coisas da imaginação, ou melhor, das formas e cores aparentes, vamos viajar na direção das sugestões ocultas e insuspeitadas. Da casa despojada de Tomie para a arte de Tomie e sua “intolerável beleza” - como escreveu o poeta concreto Haroldo de Campos numa gravura de Tomie, toda em tons de amarelo.
A casa e a arte parecem se situar no mesmo lugar, uma rua movimentada no bairro do Campo Belo, zona Sul de São Paulo. Uma construção térrea, moderna, reta e feita de concreto, toda projetada por um dos dois filhos de Tomie, o arquiteto Ruy Ohtake (o outro filho, Ricardo, dirige o Instituto Tomie Ohtake, um dos centros de arte mais ativos da cidade). O interior da residência dispõe de um jardim interno, com piscina e plantas – que a artista faz questão de cultivar, sem nenhum tipo de projeto paisagístico. “Vou plantando pelo prazer de plantar”, diz. “Não tem nada de artístico nísso.” Não é o que dizem os parentes. “Tudo nela vira arte”, dizem. A casa é completamente um ateliê. Suas pinturas em acrílico, esculturas e gravuras estão espalhadas por todo canto, quase como se os seres humanos ali não passassem de meros convidados, ou coadjuvantes de um cenário construído.
Ora, casa-ateliê não é nenhuma novidade em se tratando de artistas plásticos. No que tange a Tomie, porém, a soma é resultado de uma conquista, do esforço de uma dona-de-casa que começou a pintar no final dos anos 40 quando tinha 39 anos, e ainda tinha obrigações na administração do lar e na educação dos filhos. História pode ser uma entrada para a arte, embora indireta. Tomie conta que nasceu no tradicional cidade de Kyoto, no Japão, em 21 de novembro de 1913. Seu pai era madereiro. Sua educação foi rigorosa, e incluía caligrafia e pintura tradicionais. Em 1936, aos 22 anos, ela veio ao Brasil. “Eu tinha um irmão que havia imigrado e morava em São Paulo”, conta. “Vim para visitá-lo. Acabei ficando para sempre.” O fato é que a Guerra do Pacífico impediu que Tomie regressasse a Kyoto. Em seguida, veio a Segunda Guerra Mundial. O Japão se tornou um território inalcançável, até porque o Brasil havia se alinhado com os Estados Unidos contra o Eixo germano-japonês. Tomie casou-se, teve filhos e foi morar na Rua da Paz, no bairro da Moóca. Ali ela pintou suas primeiras telas. “Sempre fui autodidata”, diz. “Aprendi experimentando”.
Não, não é bem assim. Ela deve muito a um artista chamado Keisuke Sugano. Em 1952, esse famoso pintor figurativo japonês veio ao Brasil para realizar uma mostra no Museu de Arte de São Paulo, então localizado na rua Sete de Abril, centro da cidade. Como Sugano se hospedou em casas de famílias japonesas, ele tomou contato com os artistas locais de origem japonesa. Entre eles, Tomie, Manabu Mabe e Flávio Shiró. “A gente se reunia em minha casa na Moóca, nos sábados à tarde”, lembra Tomie. “Desenhávamos, pintávamos e espalhávamos as obras pela sala. Então Sugano comentavacada uma delas e dava dicas. E a gente se aperfeiçoava pintando paisagens.” A atividade durou apenas um mês, mas serviu como incentivo para uma vida inteira.
Tomie se entusiasmou pela pintura de paisagens figurativas e pela técnica do óleo sobre tela. “Naquela época, eu não sabia nem misturar as tintas”, diz. Ela desenvolveu seus próprios recursos em pintura a óleo ao longo de quatro décadas, de 1952 a 1987. “Mas as tintas começaram a me fazer mal”, conta. “O [Cândido] Portinari morreu por causa da intoxicação das tintas, e eu estava me sentindo mal. Adotei o acrílico e a aquarela, que é diluível em água e mais confortável para traballhar.” Com a nova tina, começou a pintar no chão, ou deitando a tela numa mesa. “Fiz do jeito que me pareceu melhor”, diz.. Atualmente, ela gosta de revezar várias técnicas: a pintura em acrílico ou aquarela, a gravura e a escultura.
Enquanto ela vai explicando o trabalho em seu idioma monossilábico, Tomie provoca reflexões instantâneas. A primeira é que não se cobra evolução de um artista. Há um caminho a ser traçado pela experiência da expressão. O de Tomie é de uma estranha coerência. É uma busca de sentido, uma perseguição de síntese. Iniciou-se na figuração, pintando as paisagens urbanas. Aos poucos, prédios e árvores se dissolvem em formas geométricas, ao passo que as cores se tornam apasteladas. As pinceladas agressivas e o ataque das manchas do final dos anos 60 dá lugar ao construtivismo geométrico dos anos 60 e 70. Mas uma geometria que se esgarça, que não traz uma linha exata. Antes pelo contrário: as cores não se dissolvem nos limites das linhas, mas se cruzam em embates que revelam a crise da metamorfose de doid pigmentos em outra possível cor. A geometria mais rígida volta a vigorar na década de 80, mas inteiramente rasurada pela emergência das cores fortes. Em seguida, tudo se rearranja e se dissolve na procura do inefável, a partir da década de 90, como observou o crítico Miguel Chaia.. As vibrações do silêncio, as transparências e profundidades sugeridas nas pinceladas curtas e rápidas fazem com que o espectador medite sobre os limites da arte e da existência.
O transcurso cronológico, porém, não explica tudo. Alguns críticos falam em síntese formal entre a pintura informal e geométrica, entre o pictórico e o construtivo, a harmonia e o desequilíbrio. Tomie sempre viveu o presente, como se praticasse o zen-budismo, muito embora ela jamais tenha professado rigorosamente nenhum tipo de doutrina religiosa. A artista persegue as formas e cores disponíveis para exprimir suas inquietações – ou sonhos, ou nadas. E nessa introspecção racional, a forma nasce como sugestão – e todos os sentidos possíveis. Como ela diz: “Nenhuma obra de arte é completa sem a participação. O espectador é que tem que completar a obra”.
Tudo isso acabou transbordando em esculturas, especialmente em instalações pública. “A arte pública é um modo de praticar a democracia”, diz. Sua primeira obra dessa natureza aconteceu em 1959. É um vitral para a FAAP (Fundação Álvares Armando Álvares Penteado), até hoje em exposição. A partir de então, criou três dezenas de obras públicas, espalhadas pelo Brasil. É o caso da escultura instalada em 1985 no centro da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, uma estrela que não leva título. Atualmente, ela projeta dois monumentos para celebrar o centenário da imigração japonesa para o Brasil, em 2008. Um deles será instaladano porto de Santos, uma estrutura em serpentina de metal vermelho, numa forma que lembra um laço ou um lenço, projetando-se em direção ao mar, como se fizesse um aceno. Essa escultura tem 15 metros de altura por vinte de comprimento. O outro monumento ficará no lobby principal do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. É um círculo de metal também vermelho, de oito de altura por oito de comprimento.”É uma homenagem aos japoneses que desembarcaram e continuam desembarcando por aqui”, comenta. “Aliás, eu cheguei do Japão desembarcando no porto de Santos.” As maquetes estão prontas e devem ser inauguradas no ano que vem. Tomie gosta de trabalhos tridimensionais. “As esculutras me dão mais liberdade de movimento”, explica. “A pintura se tornou para mim uma atividade mais difícil. Estou com um problema nacoluna e encontrar a posição correta para pintar no cavalete é complicado.”
Suas pinceladas têm acelerado. Estão mais rápidas e curtas do que nas décadas anteriores. “Vou diluindo a tinta na própria tela, criando estruturas que me espantem. É um processo de diluição.” Ou, como definiu o crítico Agnaldo Farias, “um processo geológico”. Ela afirma gostar de todos os tipos de formas, “Uso as definidas, as indefinidas, as formas que não são formas. A composição é que é o segredo.” Por isso, Tomie não se considera uma artista irracional, guiada por sensações ou sentimentos impulsivos. “Penso na obra antes de criá-la. Penso no que ver, para então ver. Meu material é cor e formas. Penso em cores, formas e, quando materializo uma pintura, escultura ou gravura, aparece a surpresa. Eu mesma não vou explicar a obra. Isso fica para quem vê.”
Como sua arte é projetiva e mental, pouco importa o suporte de que ela lança mão. De seis anos para cá , tem se dedicado à gravura, em suas várias formas: litogravura, serigrafia, gravura em metal. A reunião de sua produção como gravurista ganhou exposições em São Paulo (Instituto Tomie Ohtake) e Rio de Janeiro (Paço Imperial). “Ainda é segredo, mas tenho experimentado outras formas de fazer gravura”, diz. Ela mostra como cria a partir do material, do próprio papel cartonado, que tinge em cores que têm de surprender ela própria. “É uma mistura de gravura e pintura. Olha que bonito este cinza...” E compõe uma gravura-instalação com jeito de pintura.
Diz que aquilo que se chama inpiração lhe acontece muito cedo. “Acordo às 6 da manhã, isso sempre foi assim na minha vida, nas minhas casas que viraram ateliês. Quando acordo eu pinto formas e cores que sonhei à noite”. E completa: “
Meu jeito não é fora. Penso na cabeça. Lá fora não vou buscar. Não tem nada para mim. É melhor sonhar.“
E aqui nos encontramos no universo das densidades ocultas, das transparências sutis, das cores que se dissolvem e vibram no silêncio do gesto e da pincelada. Aqui estamos, nos domínios do quase-impossível, onde a mancha se torna forma e as indefinições viram modos de refletir sobre dimensões inimagináveis. “Eu busco formas, cores e transparências”, tenta se explicar. “ Às vezes uma cor me chama a atenção, outras vezes é algo que parece invisível. Controlando aquilo que há de invisível e intocado nas formas, eu continuo curiosa.” Em 1952, quando começou, Tomie lembra que o mundo era feito de cores mais básicas, a paleta à disposição era muito mais restrita. Havia poucos vermelhos, poucos tipos de cinza ou modalidades do amarelo. ‘Isso mudou, e estou em busca de novas combinações depois que o mundo industrial explodiu de cor”, diz Tomie. É uma característica dela, a de olhar para o futuro, mesmo em idade avançada. E sorri, ao dizer: “Coisas do passado é caminho feito. Seguir adiante e olhar para frente é mais interessante!”
Sua obra é o ensaio de lidar com forças que estão além do mundo concreto, ou, pelo menos, se encontram à luz e à sombra da percepção corriqueira. Ao dar adeus ao sorriso da artista, cruzar a porta do ateliê-casa e se deparar com a rua, a gente é capaz de enxergar a arte de Tomie Ohtake no caos mais profundo da cidade. A arte, a bem dizer, até o momento em que a deixamos. A partir de agora, a artista vai recriar o universo mais uma vez.
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