sexta-feira, dezembro 24, 2010

Tomie Ohtake, de costas para o passado

Não é bom bater à porta da casa de Tomie Ohtake com perguntas habituais que se fazem a um entrevistado quando o repórter liga o piloto automático, do tipo como foi sua infância, o casamento, preferências políticas e as viagens pelo mundo. A artista plástica de 93 anos não gosta desse tipo de abordagem. Não que a simpática senhora vá reclamar. Seu modos são delicados, cheios de nuances, humor e ironia. Ela provavelmente vai pedir para mudar de assunto ou simplesmente encerrar a entrevista oferecendo uma xícara de chá ou um suco de laranja. “Já está bom, né?”, vai dizer com um sorriso. Bom é chegar à casa de Tomie, com os olhos bem abertos para tudo o que experimentará. E encher, sim, Tomie de perguntas sobre seus assuntos favoritos: pintar, criar, esculpir, projetar. A idéia da visita é mergulhar nesses assuntos para, de alguma forma, esquecer da existência de outros seres que não sejam esses feitos de formas, transparências, densidades, pigmentos e sinteses. Será possível tal modalidade de viagem?


Nada indica que sim. Por maior que seja o esforço, o mundo e a realidade acabam se impondo à imaginação. Mas vamos tentar, partindo daquilo que existe para as coisas da imaginação, ou melhor, das formas e cores aparentes, vamos viajar na direção das sugestões ocultas e insuspeitadas. Da casa despojada de Tomie para a arte de Tomie e sua “intolerável beleza” - como escreveu o poeta concreto Haroldo de Campos numa gravura de Tomie, toda em tons de amarelo.

A casa e a arte parecem se situar no mesmo lugar, uma rua movimentada no bairro do Campo Belo, zona Sul de São Paulo. Uma construção térrea, moderna, reta e feita de concreto, toda projetada por um dos dois filhos de Tomie, o arquiteto Ruy Ohtake (o outro filho, Ricardo, dirige o Instituto Tomie Ohtake, um dos centros de arte mais ativos da cidade). O interior da residência dispõe de um jardim interno, com piscina e plantas – que a artista faz questão de cultivar, sem nenhum tipo de projeto paisagístico. “Vou plantando pelo prazer de plantar”, diz. “Não tem nada de artístico nísso.” Não é o que dizem os parentes. “Tudo nela vira arte”, dizem. A casa é completamente um ateliê. Suas pinturas em acrílico, esculturas e gravuras estão espalhadas por todo canto, quase como se os seres humanos ali não passassem de meros convidados, ou coadjuvantes de um cenário construído.

Ora, casa-ateliê não é nenhuma novidade em se tratando de artistas plásticos. No que tange a Tomie, porém, a soma é resultado de uma conquista, do esforço de uma dona-de-casa que começou a pintar no final dos anos 40 quando tinha 39 anos, e ainda tinha obrigações na administração do lar e na educação dos filhos. História pode ser uma entrada para a arte, embora indireta. Tomie conta que nasceu no tradicional cidade de Kyoto, no Japão, em 21 de novembro de 1913. Seu pai era madereiro. Sua educação foi rigorosa, e incluía caligrafia e pintura tradicionais. Em 1936, aos 22 anos, ela veio ao Brasil. “Eu tinha um irmão que havia imigrado e morava em São Paulo”, conta. “Vim para visitá-lo. Acabei ficando para sempre.” O fato é que a Guerra do Pacífico impediu que Tomie regressasse a Kyoto. Em seguida, veio a Segunda Guerra Mundial. O Japão se tornou um território inalcançável, até porque o Brasil havia se alinhado com os Estados Unidos contra o Eixo germano-japonês. Tomie casou-se, teve filhos e foi morar na Rua da Paz, no bairro da Moóca. Ali ela pintou suas primeiras telas. “Sempre fui autodidata”, diz. “Aprendi experimentando”.

Não, não é bem assim. Ela deve muito a um artista chamado Keisuke Sugano. Em 1952, esse famoso pintor figurativo japonês veio ao Brasil para realizar uma mostra no Museu de Arte de São Paulo, então localizado na rua Sete de Abril, centro da cidade. Como Sugano se hospedou em casas de famílias japonesas, ele tomou contato com os artistas locais de origem japonesa. Entre eles, Tomie, Manabu Mabe e Flávio Shiró. “A gente se reunia em minha casa na Moóca, nos sábados à tarde”, lembra Tomie. “Desenhávamos, pintávamos e espalhávamos as obras pela sala. Então Sugano comentavacada uma delas e dava dicas. E a gente se aperfeiçoava pintando paisagens.” A atividade durou apenas um mês, mas serviu como incentivo para uma vida inteira.

Tomie se entusiasmou pela pintura de paisagens figurativas e pela técnica do óleo sobre tela. “Naquela época, eu não sabia nem misturar as tintas”, diz. Ela desenvolveu seus próprios recursos em pintura a óleo ao longo de quatro décadas, de 1952 a 1987. “Mas as tintas começaram a me fazer mal”, conta. “O [Cândido] Portinari morreu por causa da intoxicação das tintas, e eu estava me sentindo mal. Adotei o acrílico e a aquarela, que é diluível em água e mais confortável para traballhar.” Com a nova tina, começou a pintar no chão, ou deitando a tela numa mesa. “Fiz do jeito que me pareceu melhor”, diz.. Atualmente, ela gosta de revezar várias técnicas: a pintura em acrílico ou aquarela, a gravura e a escultura.

Enquanto ela vai explicando o trabalho em seu idioma monossilábico, Tomie provoca reflexões instantâneas. A primeira é que não se cobra evolução de um artista. Há um caminho a ser traçado pela experiência da expressão. O de Tomie é de uma estranha coerência. É uma busca de sentido, uma perseguição de síntese. Iniciou-se na figuração, pintando as paisagens urbanas. Aos poucos, prédios e árvores se dissolvem em formas geométricas, ao passo que as cores se tornam apasteladas. As pinceladas agressivas e o ataque das manchas do final dos anos 60 dá lugar ao construtivismo geométrico dos anos 60 e 70. Mas uma geometria que se esgarça, que não traz uma linha exata. Antes pelo contrário: as cores não se dissolvem nos limites das linhas, mas se cruzam em embates que revelam a crise da metamorfose de doid pigmentos em outra possível cor. A geometria mais rígida volta a vigorar na década de 80, mas inteiramente rasurada pela emergência das cores fortes. Em seguida, tudo se rearranja e se dissolve na procura do inefável, a partir da década de 90, como observou o crítico Miguel Chaia.. As vibrações do silêncio, as transparências e profundidades sugeridas nas pinceladas curtas e rápidas fazem com que o espectador medite sobre os limites da arte e da existência.

O transcurso cronológico, porém, não explica tudo. Alguns críticos falam em síntese formal entre a pintura informal e geométrica, entre o pictórico e o construtivo, a harmonia e o desequilíbrio. Tomie sempre viveu o presente, como se praticasse o zen-budismo, muito embora ela jamais tenha professado rigorosamente nenhum tipo de doutrina religiosa. A artista persegue as formas e cores disponíveis para exprimir suas inquietações – ou sonhos, ou nadas. E nessa introspecção racional, a forma nasce como sugestão – e todos os sentidos possíveis. Como ela diz: “Nenhuma obra de arte é completa sem a participação. O espectador é que tem que completar a obra”.

Tudo isso acabou transbordando em esculturas, especialmente em instalações pública. “A arte pública é um modo de praticar a democracia”, diz. Sua primeira obra dessa natureza aconteceu em 1959. É um vitral para a FAAP (Fundação Álvares Armando Álvares Penteado), até hoje em exposição. A partir de então, criou três dezenas de obras públicas, espalhadas pelo Brasil. É o caso da escultura instalada em 1985 no centro da Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro, uma estrela que não leva título. Atualmente, ela projeta dois monumentos para celebrar o centenário da imigração japonesa para o Brasil, em 2008. Um deles será instaladano porto de Santos, uma estrutura em serpentina de metal vermelho, numa forma que lembra um laço ou um lenço, projetando-se em direção ao mar, como se fizesse um aceno. Essa escultura tem 15 metros de altura por vinte de comprimento. O outro monumento ficará no lobby principal do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. É um círculo de metal também vermelho, de oito de altura por oito de comprimento.”É uma homenagem aos japoneses que desembarcaram e continuam desembarcando por aqui”, comenta. “Aliás, eu cheguei do Japão desembarcando no porto de Santos.” As maquetes estão prontas e devem ser inauguradas no ano que vem. Tomie gosta de trabalhos tridimensionais. “As esculutras me dão mais liberdade de movimento”, explica. “A pintura se tornou para mim uma atividade mais difícil. Estou com um problema nacoluna e encontrar a posição correta para pintar no cavalete é complicado.”

Suas pinceladas têm acelerado. Estão mais rápidas e curtas do que nas décadas anteriores. “Vou diluindo a tinta na própria tela, criando estruturas que me espantem. É um processo de diluição.” Ou, como definiu o crítico Agnaldo Farias, “um processo geológico”. Ela afirma gostar de todos os tipos de formas, “Uso as definidas, as indefinidas, as formas que não são formas. A composição é que é o segredo.” Por isso, Tomie não se considera uma artista irracional, guiada por sensações ou sentimentos impulsivos. “Penso na obra antes de criá-la. Penso no que ver, para então ver. Meu material é cor e formas. Penso em cores, formas e, quando materializo uma pintura, escultura ou gravura, aparece a surpresa. Eu mesma não vou explicar a obra. Isso fica para quem vê.”

Como sua arte é projetiva e mental, pouco importa o suporte de que ela lança mão. De seis anos para cá , tem se dedicado à gravura, em suas várias formas: litogravura, serigrafia, gravura em metal. A reunião de sua produção como gravurista ganhou exposições em São Paulo (Instituto Tomie Ohtake) e Rio de Janeiro (Paço Imperial). “Ainda é segredo, mas tenho experimentado outras formas de fazer gravura”, diz. Ela mostra como cria a partir do material, do próprio papel cartonado, que tinge em cores que têm de surprender ela própria. “É uma mistura de gravura e pintura. Olha que bonito este cinza...” E compõe uma gravura-instalação com jeito de pintura.

Diz que aquilo que se chama inpiração lhe acontece muito cedo. “Acordo às 6 da manhã, isso sempre foi assim na minha vida, nas minhas casas que viraram ateliês. Quando acordo eu pinto formas e cores que sonhei à noite”. E completa: “

Meu jeito não é fora. Penso na cabeça. Lá fora não vou buscar. Não tem nada para mim. É melhor sonhar.“

E aqui nos encontramos no universo das densidades ocultas, das transparências sutis, das cores que se dissolvem e vibram no silêncio do gesto e da pincelada. Aqui estamos, nos domínios do quase-impossível, onde a mancha se torna forma e as indefinições viram modos de refletir sobre dimensões inimagináveis. “Eu busco formas, cores e transparências”, tenta se explicar. “ Às vezes uma cor me chama a atenção, outras vezes é algo que parece invisível. Controlando aquilo que há de invisível e intocado nas formas, eu continuo curiosa.” Em 1952, quando começou, Tomie lembra que o mundo era feito de cores mais básicas, a paleta à disposição era muito mais restrita. Havia poucos vermelhos, poucos tipos de cinza ou modalidades do amarelo. ‘Isso mudou, e estou em busca de novas combinações depois que o mundo industrial explodiu de cor”, diz Tomie. É uma característica dela, a de olhar para o futuro, mesmo em idade avançada. E sorri, ao dizer: “Coisas do passado é caminho feito. Seguir adiante e olhar para frente é mais interessante!”

Sua obra é o ensaio de lidar com forças que estão além do mundo concreto, ou, pelo menos, se encontram à luz e à sombra da percepção corriqueira. Ao dar adeus ao sorriso da artista, cruzar a porta do ateliê-casa e se deparar com a rua, a gente é capaz de enxergar a arte de Tomie Ohtake no caos mais profundo da cidade. A arte, a bem dizer, até o momento em que a deixamos. A partir de agora, a artista vai recriar o universo mais uma vez.

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Dolores Duran, o coração como bússola

Todo cantor é compositor. Se o seu destino se cumpre, quase sempre o intérprete se converte em criador. Porque ele inventa ao cantar, curva-se sobre uma melodia até fazer desta uma assinatura. O processo começa com a intuição e aos poucos se torna conhecimento. Esse tipo de metamorfose é rara na música popular. Mas aconteceu com Dolores Duran. Ela foi uma cantora que, por reelaborar as músicas que interpretava como se fossem suas, transformou-se em seguida em autora de algumas das mais lindas canções dos anos 50, como “Por causa de você” e “A Noite de meu bem”. Dolores morreu muito cedo, os 29 anos, cinquenta anos atrás. Mesmo assim, teve tempo suficiente para viver a sua arte e torná-la... por falta de chavão menos batido, para torná-la imortal.

A artista deixou um acervo pequeno e talvez condenado ao esquecimento, como se deu com tantos colegas contemporâneos seus. Escreveu 22 canções, gravou 13 compactos e oito LPs em sete anos de carreira. Suas canções românticas poderiam ter sido alvo dos bossa-novistas. Mas ela escapou do estigma de ultrapassada. A eclosão do movimento do banquinho e o violão ocorreu quando o estilo praticdo por Dolores estava no ápice. A Bossa Nova despontou em 1958 com a aparição do cantor e violonista João Gilberto. O novo modo de interpretar samba arregimentou gerações de jovens que se empenharam em fazer canções maravilhosas e renovadoras, inspiradas no jazz e no canto sem vibratos nem dramas de Mário Reis. Era preciso encontrar uma bête noire: o samba-canção. Os bossa-novistas satanizaram esse gênero como uma diferença a ser banida de suas canções. Afinal, o samba-canção em moda na passagem dos anos 40 para os 50 trazia um catálogo de frustrações amorosas e de motivos abolerados que remetiam a uma vida noturna acanhada e provinciana de Copacabana. Tudo o que os garotos dourados de Ipanema queriam esquecer, muito embora todos tenham bebido da fonte da então chamada “dord-de-cotovelo”. Dolores Duran reunia credenciais para cair em desgraça diante da geração emergente. Sua turma era outra. Ainda por cima, ostentava então o título de Rainha do Samba-Canção. Em 1959, enquanto os universitários da bossa faziam festivais com canto cool, Dolores cantava até forrós em parceria com o comediante Chico Anysio. Como então conseguiu driblar o choque dos tempos?

Talvez ela não tenha driblado nada e sua morte súbita, despertado a compaixão e o respeito dos rivais – e a tendência de colocar o artista morto muito jovem em um pedestal. Sua glória cresceu postumamente. Houvesse vivido mais, ela poderia ter se colocado à margem do movimento e criticá-lo, ou mesmo se associado à música moderna, como o fez Maysa em 1961 ao gravar o LP O Barquinho. Maysa era uma cantora de características semelhantes a Dolores. É fácil imaginar Dolores gravando em 1960 a bossa “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes – porque Dolores nunca registrou bossas da turminha. Mesmo assim, deixou gravado uma sessão de ensaio feita para a rádio Tupi em meados de 1959, quando entoou Chega de Saudade em duo com a amiga Mariza, mais tarde apelidada de Gata Mansa. Nesta gravação, conservada pelo radialista Walter Silva, Dolores canta baixinho, feito aquelas meninas que franqueavam os apartamentos para as jam sessions dos novos músicos, como Astrud Gilberto e Nara Leão. Esse, porém, não era Dolores no seu elemento. Ela esbanjava os tão odiados vibratos e o tema recorrente de suas composições era o amor dolorido e impossível. Nada a ver com o otimismo da bossa.

Amargo realismo de berço? Dolores não nasceu Dolores. Este foi o nome resultante de uma afirmação artística, quando, aos 16 anos, ela começou a trabalhar na boate Vogue, em Copacabana, e era moda a música latina. Dolores Duran soa como apelido de cantora latina de repertório internacional. E era o que Dolores mostrava em seus shows de boate, pois, desde pequena, mostrou facilidade para cantar em diversas línguas. Dolores nasceu Adiléia da Silva Rocha em 7 de junho de 1930 na rua do Propósito, na Saúde, área modesta do Rio de Janeiro. Foi a terceira dos quatro filhos do casal Armindo José da Rocha e Josefa Silva da Rocha. Como conta o pesquisador Ricardo Cravo Albin, ela sofreu desde criana de um reumatismo, que acabou deixando sequelas em seu sistema cardíaco, fato que a veio prejudicar na idade adulta. A mãe, dona de casa. O pai, um rigoroso sargento da Marinha, não a impediu de se apresentar, a partir dos 5 anos, em teatro infantil e programas de calouros. Com 10 anos, fantasiada de mexicana, ela cantou “Vereda Tropical”, em inglês e português, no programa de rádio Calouros em Desfilo, de Ary Barroso. Adiléia ganhou 500 mil réis, o primeiro lugar e o direito de participar de todo tipo de programa de rádio, como artista infantil. O pai aplaudia. Mas talvez o sargento Armindo se opusesse à carreira na noite, caso não tivesse morrido quando Adiléia tinha 12 anos, e precisou sair para trabalhar e ajudar no orçamento da família.

Com 16 anos, em 1946, venceu o concurso À Procura de uma cantora de boleros, no programa de rádio de Renato Murce. Isso lhe valeu um contrato como crooner na sofisticada boate Vogue, em Copacabana. Para trabalhar, teve de falsificar a carteira de identidade porque era menor. O repertório era variado, o gosto em meados dea década de 40 era pelo bolero e Adiléia dotou seu nome artístico. O radialita César de Alencar ouviu-a e a contratou para o casting da Rádio Nacional, para cantar música internacional. Era a mesma situação de outra cantora, Julie Joy, com quem Dolores passou a dividir um pequeno apartamento em Copacabana. Julie Joy relembra os primeiros passos da amiga: “A gente não tinha grana e costurava os vestidos para se apresentar nas rádios e nas boates. Dolores era louquinha, louquinha. Gostava de tomar de manhã uma xícara das grandes de café preto. Isso fazia mal ao seu coração.”

O público passou a ver nela uma tradutora de suas inquietações. Ela se tornava uma espécie de contrafação feminina e musical das crônicas sentimentais de Antônio Maria, como bem observou o cronista Paulo Mendes Campos. “Os dois gostavam de viver mais de noite do que de dia, os dois faziam canções, os dois precisavam de amor pra respirar, e mesmo na hora da morte, os dois foram atingidos por um só inimigo: o coração”.

O coração foi inimigo e a bússola de sua carreira. Ela se destacava pela expressão emotiva. Em 1952, gravou seu primeiro disco, para o carnaval do ano seguinte, com dois sambas: “Que bom será” (Alice Chaves, Silavdor Miceli e Pauo Marques) e “Já não interessa” (Domício Costa-Roberto Faissal). Em 1953, vieram gravações do gênero da moda, o samba-canção. Foi então que gravou “Outono” (Billy Blanco) e “Lama”, de Paulo Marques e Ailce Chaves. A fama como cantora aconteceu em 1953. Nessa época, gravou para a Copacabana os primeiros sucesos, como ‘Canção da Volta’ de Ismael Netto e Antônio Maria. Por essa época, a Vogue havia se convertido em local de peregrinação dos jovens que viriam a fundar a Bossa Nova anos mais tarde. Eles iam à minúscula casa noturna ouvir Dolores e Johnny Alf, pianista, cantor e fundador de um novo gênero, que denominou samba-jazz. Dolores introduziu em seus shows (assim começaram a ser chamadas as apresentações) o scat-singing do jazz, que encantava os jovens, como a futura cantora Leny Andrade. Gordinha e com os olhos puxados e brilhantes, ela fazia um tipo simpático, aparentemente alegre, sempre sorridente. Imagens dela podem ser vistas no YouTube, em participações que fez nos filmes musicais em moda nos aos 50.

Nas boates de Copacabana que Dolores freqüentou, ela não inovou apenas na interpretação. No comportamento também. Em apenas sete anos de trajetória profissional, Dolores ajudou a construir um novo modelo de comportamento feminino. Nas grandes cidades do Brasil, a mulher começava a se libertar das amarras da tradição e dos tabus, passava a morar sozinha. O bairro de Copacabana, com suas boates e a vida noturna intensa, tornou-se o palco dessa grande transformação social da mulher.

Dolores fez questão de manter a sua vontade no amor, ese apaixonava por mulheres e homens. Em 1955, durante a gravação da música “Pra que falar de mim”, samba de Ismael Neto e do radioator Macedo Neto, apaixonou-se por este, casou-se, adotou uma menina e tentou levar uma vida doméstica. Não conseguiu. A aventura a chamava. Três anos depois, já separada, namorou o compositor e pianista João Donato, mais novo que ela. E compôs para a Marisa Gata Mansa o samba-canção “Por causa de você”. A música é de Tom Jobim, que ela tinha ouvido numa sessão de rádio, com versos de Vinicius de Moraes. Dolores apresentou uma nova letra, para a aprovação de Tom, que a aprovou, não sem consultar o poetinha. A letra carrega nos sentimentos, de tal forma que parece um tanto exagerados para os padrões de hoje:



“Olhe, meu bem

Nunca mais nos deixe, por favor

Somos a vida, o sonho

Nós somos o amor



Entre, meu bem, por favor

Não deixe o mundo mau

Lhe levar outra vez

Me abrace simplesmente

Não fale, não lembre

Não chore, meu bem.

Dolores era a tradutora dos sentimentos e inquietações de uma época que começava a se dar conta de que as convenções sociais eram opressoras da criatividade, e do papel ativo da mulher. Viveu com sua filha em um quarto-e-sala em Copacana. Ela se apresentou pela última vez no Little Club, na noite de 23 de outubro de 1959. Depois do show, foi com amigos para uma festa do Clube da Aeronáutica. E deu mais uma esticada no Kit Clube. hegou ao apartamento às 7 da manhã de 24 de outubro. Antes de se recolher no quarto, avisou a empregada: “Não me acorde. Estou muito cansada. Vou dormir até morrer”. Foi encontrada morta naquela noite. Vítima de um ataque cardíaco.

A carga emotiva chamou atenção de seu símile cronista, Antônio Maria, que contou como a conheceu numa crônica publicada um dia depois da morte de Dolores: “Vi-a, pela primeira vez, no Vogue. Cantava escondidinha, fora de luz, atrás do saxofonista. Quase não se lhe via o rosto. Faz muito tempo.Mais tarde, fizemo-nos amigos. Com Ismael Neto, andávamos constantemente juntos. Estava presente, quando fizemos algumas cançõs, "Canção da volta", por exemplo, de que foi a primeira intérprete. Hoje em dia, lembrava-se de canções, minhas e de Ismael, das quais não me lembro. Só ela se lembrava. Prometia sempre um encontro (ummaestro presente), para escrevermos essas músicas, que Ismael não teve tempo de escrever. Uma delas chama-se "Dez noites". Essas músicas não serão conhecidas nunca mais. Poucas vezes passou pela música popular uma mulher de tanta sensibilidade. Seu coração era um coração repleto de amor. Nunca a vi que não dissesse estar apaixonada. Não dizia por quem”.

Sim, porque Dolores não devia satisfação a ninguém. Era a nova mulher, que desabrocharia na década seguinte. Uma cidadã que desejava, mais do que tudo, brilhar com seu canto emocional. Viva, fez sucesso como cantora de circos, televisão e sobretudo de boates. Ao morrer, a fama de compositra dessa rainha da noite se fez ouvir, quase apagando a fama da intérprete. Mas cantores sempre são compositores. Interpretar é compor. E Dolores compunha como se cantasse. A composição que brilhou na tragédia-espetáculo da jovem que morre aos 29 anos foi A Noite de Meu Bem, que ela gravou em 1959, dias antes de morrer, dedicada a uma nova paixão não revelado. O disco foi lançado duas semanas depois do seu enterro. E nunca mais parou de tocar.

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