O novo romance de José Saramago, Caim (Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 36,00), já chega aos sites de download e às livrarias abençoado pela mais eficiente estratégia de marketing: a controvérsia religiosa. O livro inocenta o fratricida Caim e transfere a culpa a Deus. Nada mais lucrativo do que irritar sacerdotes. Saramago adora isso. É um hábito arraigado do intelectual de 86 anos que professa a fé marxista desde a juventude. Não perde a oportunidade para botar lenha na fogueira verbal da Santa Inquisição, para que arda gostosamente nela. Na quarta-feira, em Roma, onde participaou de um encontro de filósofos, Saramago chamou o alemão Josef Ratzinger, o papa Bento XVI, de cínico: “Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem”, disse. A declaração serviu como pré-lançamento de Caim.
O livro marca o retorno do escritor à pregação ateísta, agora que o gênero entrou em moda, com os ensaios de Richard Dawkins, Richard Harris e Christopher Hitchens. A vantagem de Saramago sobre esses intelectuais é que o português sabe divertir com suas histórias e pilhérias. Em 1991, ele arrancou o filho de Deus da cruz e o trouxe de volta ao chão com o romance O evangelho segundo Jesus Cristo. A Igreja Católica protestou contra a livre interpretação do Novo Testamento contida na obra. A controvérsia sobre quanto o Nazareno possuía de humanidade aumentou a fama anticlerical de Saramago. Sete anos depois, ele ganharia o prêmio Nobel de Literatura.
Caim chega em um momento tardio do escritor. Trata-se do décimo sexto livro de ficção de sua carreira, iniciada em 1947 com o romance Terra do pecado, não incluída em sua bibliografia oficial e fora de catálogo. A revolta contra a noção de pecdo, como se vê, apareceu logo no primeiro título. Hoje o autor experimenta a liberdade de uma espécie de pós-existência, que ele decretou no fim de 2007 quando descobriu um câncer. Desde então, abriu e fechou um blog (O caderno, que publicou em volume em junho desde ano) e decidiu falar o que pensa mais do que nunca, como se tudo o que dissera antes não houvesse bastado. O resultado da atitude se fez presente no romance A viagem do elefante, de 2008, e agora em Caim: o modo de narrar de Saramago ganhou em sarcasmo, erotismo e crueza. Ele se despiu do seu costumeiro barroquismo para adotar a forma direta relato de viagem satírico, que não desvia das cenas de sexo e brutalidade. Saramago enfim abraçou o seu tempo.
Caim é um livro que tanto faz rir quanto pode provocar engulhos nas almas religiosas. A narrativa se organiza como uma novela de andanças no tempo. O personagem-título viaja em zigue-zague pelos principais episódios do Velho Testamento, dos Jardins do Éden à Arca de Noé, passando pela destruição de Sodoma e Gomorra, as trombetas de Jericó, os sofrimentos de Jó, o Bezerro de Ouro de Aarão e a Torre de Babel.
A história é conhecida: Caim matou seu irmão Abel por ciúmes de Deus, que supostamente amava mais este que aquele. Caim é estigmatizado por um sinal na testa econdenado por Deus a permanecer vivo, errando pelo mundo. Em vez do apólologo moral, o narrador mostra com humor as reações do anti-herói a cada uma das decisões de Deus. O romance corre ao sabor da estranha jornada dos ataques de Caim a Deus – que Saramago faz questão de grafar em letras minúsculas. Como um personagem pícaro, Caim culpa Deus por sua conduta libertina. Ele faz sexo com todas as mulheres que aparecem na sua frente. Torna-se amante da rainha Lilith e não poupa nem mesmo a idosa mulher de Noé, com quem se acasala ao longo da jornada dentro da Arca.
O leitor pode ouvir a risada rude do camponês nascido no Ribatejo, acostumado à prática da blasfêmia em passagens como este diálogo em que Caim responde à fúria de Deus, que diz ter posto Caim à prova quando preteriu a sua oferta em sacrifício para a a de Abel: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono de todas as coisas, E de todos os seres, diiás, ma snão de im nem da minha liberdade, Liberdade para matar., Como tu foste livre para deixar que eu matasse a abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abnadonassses a soberba da infalibilidade q que partilhas com todos os outros deuses, bastarias que poru um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasses a minha oferenda com humildade, só porque não deverias atrever-se a recusá-la, os deuses, e tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado”.
Os versículos satânicos de Saramago são uma demonstração de seu grande humor. Caso fosse filmado, Caim soaria tão sacrílego e hilariante quanto um velho filme de Monty Pithon.
Tentamina
sábado, outubro 17, 2009
Texts by braziian journalist Luís Antônio Giron. Braziian music, literature, critic, culture.
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