quinta-feira, junho 24, 2004

E o sertão virou livro


Há cem anos, era publicado Os Sertões, de Euclides Cunha, obra que mudou a face dos estudos brasileiros e continua provocando discussões e eventos





Luís Antônio Giron


Contrariando as profecias do líder religioso Antônio Conselheiro, o sertão não virou mar. Virou livro. O massacre da comunidade conselheirista no alvorecer da república talvez não fosse hoje lembrado se Euclides da Cunha não tivesse publicado Os Sertões (Campanha de Canudos) em 1902. O centenário da obra é festejado com eventos e lançamentos (leia programação). Também é ocasião para renovar os debates sobre a permanência da obra.
Por causa dela, Euclides da Cunha tornou-se, ao lado de Machado de Assis, o autor mais estudado da literatura brasileira. A bibliografia euclidiana atinge 10 mil títulos. Ainda assim, novidades sobre o tema surgem todos os anos.
Passaram-se cinco anos entre o fim da chamada Guerra de Canudos, com a aniquilação do arraial baiano ao entardecer de 5 de outubro de 1897, e a edição do livro pela Laemmert, no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1902. Euclides dormiu obscuro e despertou famoso, conforme escreveu o crítico Sílvio Romero. Assim também Canudos se reergueu das cinzas para ganhar as 637 páginas da primeira edição do texto do escritor, então com 36 anos. O impacto da denúncia do crime cometido pelo exército – que matou milhares de pessoas por degola, bombardeios e incêndios do casario com tochas de quereosene - foi potencializado pelo estilo do narrador, eloqüente, “estilhaçado” segundo Araripe Jr., ou, na visão de Joquim Nabuco, “um imenso cipoal” em que se entrelaçam ensaio, romance, poema, ciência, arte, história e peça acusatória.
O autor dividiu o volume em três partes: “A Terra”, em que trata de aspectos naturais e topográficos da região de Canudos; “O Homem”, sobre a condição mestiça do habitante do sertão; e “A Luta”, a parte mais animada da obra. Nesta, Euclides usou o material colhido na cobertura que fez sobre a queda de Conselheiro e destruição de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo em 1897.
O caráter híbrido fez de Os Sertões um fundamento dos estudos sobre o Brasil. As interpretações em torno do livro se sucedem e cada uma delas oferece ângulos inesperados. Inspira peças, filmes, tratados, romances e até rituais cívicos, como o que acontece anualmente em agosto na cidade paulista de São José do Rio Pardo. Ali funciona a Casa Euclidiana, que promove há 90 anos encontros do crescente círculo de fãs e pesquisadores do escritor. A Semana Euclidiana, como é chamado o evento, extrapola as lides acadêmicas. “Temos nossos rituais”, diz o diretor da Casa Euclidiana, Álvaro de Oliveira. Todo ano promovem um concurso de redação entre os estudantes que participam do encontro. Além de redigir uma composição sobre um tema, disputam a Maratona Euclidiana. O assunto deste ano foi: “Os Sertões, cem anos depois, merece a consideração da cultura brasileira?” Os 500 participantes chegaram a conclusões parecidas, de acordo com Oliveira: “A maioria enfatizou que o livro continua atual porque denuncia a existência de dois Brasis – um pobre, outro rico – e as enormes desigualdades sociais.”
Tal atualidade, porém, soa artificial. O Brasil de Euclides era predominantemente rural, ao passo que hoje a posição se inverteu e cerca de 80 por cento da população vive nas cidades. Não há mais o contraste apontado pelo escritor entre o sertão arcaico, monárquico, e o litoral moderno, republicano, racional. Canudos virou parque nacional.
“Como obra científica, é datado”, comenta José Carlos Santana, da Universidade Estadual de Feira de Santana, organizador do simpósio internacional sobre Os Sertões e autor de um ensaio sobre a geologia de Os Sertões. “Euclides defende uma tese sobre a nacionalidade que se filia à escola positivista, de conteúdo racista. Mas serve para estudar o estado da ciência na época. Euclides entra em choque com as teorias que defendia no início do livro. O que ele via negava o que ele teoricamente construía. Se o sertanejo aparentemente pertencia a uma raça inferior segundo seus critérios metodológicos, termina por afirmar que era ‘um forte’. Euclides caiu na real.”
Mas é na fantasia que sua obra subsiste O consenso entre os estudiosos está em atribuir a sobrevivência do livro à sua qualidade literária .
“É uma tentativa de leitura do Brasil a partir do seu âmago recôndido”, analisa Francisco Foot Hardmann, professor da Unicamp. “A força do livro é poética. Por causa dele, estamos falando ainda de Canudos. Ele garantiu uma memória sobre o fato, algo incomum na historiografia do Brasil, habituada ao ocultamento.”
Hardmann e seu colega Leopoldo Bernucci, da Universidade de Austin, Texas, preparam para o ano que vem a edição dos poemas completos de Euclides. O livro vai levar o título do caderno de poesias juvenis do autor: “Ondas”. Reúne 140 poemas, quase todos inéditos, escritos entre 1882 e 1906. ”A poesia, apesar de irregular, ilumina o trabalho de linguagem em Os Sertões, e mostra que ele não foi casual”, diz Hardmann. Meio parnasiano, meio romântico, o escritor se dedicava ao soneto, à poesia épica e era um leitor de Victor Hugo.
Sua poesia narrativa funciona como um ímã irresistível - uma espécie de feitiço, nas palavras do historiador Marco Antonio Villa. “Mesmo não concordando, a gente acaba se apaixonando por ele”, diz Villa. “Persiste pela beleza literária, não pela fidelidade aos fatos.”
Villa é responsável pelo principal lançamento em livro sobre Canudos deste ano. Trata-se do poema Canudos, história em versos, escrito em 1897 por Manuel Pedro das Dores Bombinho, soldado e testemunha ocular da guerra. A obra, inédita, foi transcrita e anotada pelo historiador. As quadras de Bombinho informam sobre nomes de jagunços e locais não documentados pelos demais autores, informa Villa.
Um dos responsáveis pela restauração do poema foi Roberto Ventura, professor da Universidade de São Paulo, que morreu aos 45 anos num acidente de carro em 14 de agosto deste ano, ao voltar da Semana Euclidiana. Os euclidianos lamentam a perda, já que Ventura era admirado pela documentação sobre o assunto que havia conseguido reunir e preparava uma biografia sobre o escritor havia mais de dez anos. O trabalho ficou incompleto. Das 600 páginas planejadas, concluiu apenas 190. Ainda assim, a obra deverá sair no ano que vem, em edição da Companhia das Letras, com revisão de Hardmann e José Carlos Santana. Uma versão resumida da biografia está sendo lançada esta semana. É o manual Folha explica Os Sertões, com 96 páginas. Outro texto que Ventura terminou foi a apresentação biográfica que abre o volume duplo dedicado a Euclides dos Cadernos de Literatura Brasileira, que estão sendo lançados em pelo Instituto Moreira Salles com diversos textos inéditos. Ainda a propósito do centenário, a instituição edita o primeiro volume dos Cadernos de Fotografia Brasileira, com as 70 fotos de Flávio de Barros feitas por encomenda do Exército durante o conflito e que vieram a ilustrar a primeira edição de Os Sertões. As fotos foram restauradas digitalmente e figuram de uma exposição no Rio de Janeiro. O trabalho de restauração joga um zoom sobre as imagens. Na capa do caderno, descobre-se o detalhe do rosto resignado de uma mulher cercada por duas crianças, em meio aos 400 jagunços prisioneiros. Uma minúcia que passava quase despercebida antes da recuperação da foto.
Como todo monumento, Os Sertões lança uma sombra sobre o que cresce em torno dele. Mas por mais que seja questionado, segue a desafiar e encantar os leitores. O sertão pintado ali com cores contrastantes desaparece aos poucos da paisagem. Restará percorrê-lo em livro.